Estudo para superfície e linha | 2005

Exposição individual
CCBB

Rio de Janeiro

Chama a atenção desses “estudos de espaço”, que Iole de Freitas apresenta no Centro Cultural Banco do Brasil, a configuração arquitetônica em que a artista acabou por dissolver a escultura. Não pode passar despercebido, afinal, o fato de o trabalho não surgir tanto como o conjunto de objetos (“esculturas”?) que o constituem, mas antes feito um acontecimento único, todos esses objetos tendo seus contornos embaçados, relativizados em justaposições sucessivas, revelando-se descarnados e potencializados a um rol mínimo de elementos estruturais. Os objetos, então, em vez de se adicionarem ao espaço, como normalmente fazem as esculturas, nele se dissipam, transformando-o num campo de forças que se faz sentir para além da objetividade empírica que casa um deles carrega. O que se tem agora, mais do que uma série quantificável de eventuais esculturas, é um complexo de superfícies de policarbonato e linhas tubulares que se retesam ou descomprimem em gordos arqueamentos, num trânsito frenético entre uma infinidade de experiências psicossensoriais: interior e exterior, leve e pesado, contínuo e descontínuo.

O trabalho sugere, dessa maneira, uma arquitetura “mole” e translúcida, a se desenvolver sem cerimônia por dentro da arquitetura sólida do prédio ou, mais precisamente, a deshierarquizar o que esta estabelece como um “aqui” interior e a exterioridade que se desdobraria para além de duas paredes, “lá fora”, no ambiente da “cidade”. Diferentemente da natureza institucional e material daquela, a arquitetura efêmera e ambulante do trabalho, pensada no horizonte da utopia de um corpo dotado de inesgotável plasticidade e capaz de transitar sem solução de continuidade entre o intimismo do gesto e a impessoalidade do design, embaralhada e comuta livremente o acaso e o planejamento, o próximo e o distante, o interno e o externo, obedecendo às suas próprias leis de funcionamento, revolvendo e transtornando os modos de uso de toda arquitetura, embora em negociações cerradas e pontuais com ela, seja qual for tal arquitetura.

Porque também institui uma temporalidade própria, as construções orgânicas de Iole de Freitas fazem variar, animadas pelo espírito de jogo e da montagem, a relação entre o “aqui” e o “ali”, o “antes” e o “depois”, ora descobrindo o espaço como a eclosão de um tempo acelerado, espécie de presente múltiplo e descompactado em incontáveis camadas simultâneas, ora refreado por força gravitacional entorpecedora. Considerando o percurso da produção de Iole, cuja característica mais marcante, como se sabe, é a leveza e a vontade de se constituir não mais do que como uma experiência espaço-temporal, desonerada de peso e massa, e que, sobretudo, rejeita a ilusão da tridimensionalidade do espaço, o trabalho realizado para o Centro Cultural Banco do Brasil sinaliza um ponto culminante nesse percurso. Devir de superfícies múltiplas em periclitante sustentação recíproca, os “estudos de espaço” indicam que a artista deseja abdicar mais radicalmente ainda da dimensão objetual da escultura, concebendo-a como um feixe de pontos de vista móveis, descentralizados, aptos a reconstruir permanentemente o lugar do sujeito.

Iole de Freitas iniciou a carreira no princípio da década de 1970, quando se mudou para Milão, num período de grande vitalidade cultural, marcado pela onda da contracultura e, especialmente na Itália, pelas manifestações da body art e da arte povera. Desde esse momento inaugural, em que realizava performances das quais era ao mesmo tempo protagonista e testemunha solitária, a artista vem explorando a plasticidade com que o espaço pode reagir aos movimentos do corpo, plasticidade tanto maior quanto for a riqueza e complexidade de formas que este seja capaz de solicitar àquele.

English

What draws our attention to the “studies of space” presented by Iole de Freitas at the Centro Cultural Banco do Brasil is the architectural configuration in which the artist eventually dissolves the sculpture. One cannot but notice the fact that the work emerges not so much as the group of objects (“sculptures”?) that actually constitute it, but rather as a unique event, all said objects having their outlines dulled or relativized by successive juxtapositions, revealing themselves stripped of flesh and reduced to a minimum roster of structural elements. The objects, then, instead of adding themselves to the space as sculptures normally do, dissolve in it, transforming it into a force field that makes itself felt beyond the empirical objectivity borne by each one of them. More than a quantifiable series of presumed sculptures, what we now have is a complex of polycarbonate surfaces and tubular lines that contract or decompress themselves in fat curvatures, in frantic transit among infinite psycho- sensorial experiences – exterior and interior, light and heavy, dense and fluid, continuous and discontinuous.

Thus, the work suggests a flexible, translucent architecture, unceremoniously evolving within the solid architecture of the building or, more precisely, de-hierarchizing what the latter establishes as an interior “here” and an exteriority unfolding beyond its walls, “out there”, in the environment of the “city”. Unlike the institutional, material nature of the latter, the ephemeral and ambulatory architecture of the work, conceived on the utopian horizon of a body endowed with infinite plasticity, able to transit boldly and without interruption between the intimacy of gesture and the impersonality of design, freely confuses and exchanges both chance and planning, that which is near and that which is faraway, the internal and the external, according to its own laws of functioning, ransacking and transforming ways to use all architecture, albeit in close and precise negotiations with it, whatever such architecture may be.

Because they also institute a temporality of their own, Iole de Freitas’s organic constructions, animated by a spirit of play and assembly, continuously exchange the “here” and the “there”, the “before” and the “after”, discovering space as the vortex of an accelerated time, a sort of multiple present, de-compacted in countless simultaneous layers or, conversely, restrained by a benumbing gravitational force. Considering the trajectory of Iole de Freitas’s production, the most prominent characteristic of which (as we know) is lightness and the will to constitute itself as no more than a space-time experiment, exempted by weight and mass which, above all else, reject the illusion of spatial three-dimensionality, the work created for the Centro Cultural Banco do Brasil signals a decisive point in this trajectory. A becoming of multiple surfaces in hazardous reciprocal support, the “studies of space” indicate that the artist wishes to abdicate even more radically from the positive site of sculpture, conceiving it as a chiasma of movable, decentralized perspectives, where the place of the subject is permanently reconstructible.

Iole de Freitas (Belo Horizonte, 1945 – lives and works in Rio de Janeiro) began her career in the early 1970s, when she moved to Milan during an era of tremendous cultural vitality marked by the counterculture and (in Italy especially) by the manifestations of body art and of arte povera. Ever since that first moment, in which she was simultaneously the protagonist and the solitary witness of her own performances, the artist has been exploring the plasticity with which space reacts to body movements, a plasticity that is greater for the richness and complexity of the forms which the former is able to elicit from the latter.

Texto de / Text by Sônia Salzstein

Extras

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