Casa França-Brasil | 2009

Exposição individual
Casa França-Brasil

Rio de Janeiro 

A instalação apresentada na Casa França-Brasil assinala um momento de radicalização de um conjunto de trabalhos “arquitetônicos” de grande escala, realizados por Iole de Freitas na última década. Ela consuma uma experiência de funcionalidade que atende apenas aos desígnios de desenvolvimento e autodomínio do gesto e, assim, com naturalidade, por força mesmo de sua necessidade interna, reconvoca a uma antiga discussão, sobre ideias de uso, funcionalidade e finalidade do trabalho de arte. A discussão foi crucial na fase mais radicalmente política do movimento russo, e aos termos em que ela era colocada resistiu uma boa parte da arte moderna europeia produzida mais ou menos no mesmo período, que preconizava sua finalidade sem fim, intransitiva e imanente. Essas ideias, como se sabe, retornam ao debate contemporâneo da arte sob os auspícios de um sistema da cultura essencialmente compensatório (isto é, no qual sempre se pode resgatar o que foi, socialmente, experimentado como perda, falta e privação); nele, virtualmente, a tudo pode corresponder alguma finalidade (ou função), na medida mesmo em que a tudo corresponderá, de modo simétrico, algum quantum de informação.

O dado surpreendente no trabalho de Iole de Freitas é que, em vez de resistir, como fizeram as vanguardas modernas, aos termos em que se colocava a discussão sobre o propósito, a finalidade ou a utilidade da arte, ele demonstra com toda a clarividência que a funcionalidade é aquilo mesmo que lhe preenche e dá vida. Esse trabalho demonstra, igualmente, que a necessidade não preexiste à função – o que se dá é justo o inverso. Não nos deixa esquecer, ademais, que, não fosse uma volição interna a cada vez redescoberta, ele poderia muito bem não existir. Intuímos que, provavelmente, nos adaptaríamos bem a tal situação. Merz, proun, bólides… Para que servem, afinal?

English

The installation presented at the Casa França-Brasil signals a radical step in the history of a group of large-scale “architectural” works created by Iole de Freitas throughout the last decade, consummating an experience of functionality that attends only to the designs of development and self-mastery of gesture and thus, with naturalness – and by actual force of its internal need – reintroduces the old debate regarding the use, functionality and purpose of the work of art. This discussion was crucial to the most radically political phase of the Russian movement, and the terms in which it was proposed resisted most modern European art produced during more or less the same period (which extolled its immanent and intransitive purposeless purpose). As we know, these ideas have resurfaced in the contemporary artistic debate under the auspices of an essentially compensatory system of culture (that is, one in which it is always possible to salvage that which was socially experienced a loss, lack, and deprivation); in it, virtually, all things may have purpose (or function), inasmuch as all things ought symmetrically to correspond to a quantum of information.

The most astonishing feature of Iole de Freitas’ work is that instead of resisting the terms of the debate regarding the purpose, aim or usefulness of art – like the modern avantgardes – it clairvoyantly demonstrates that functionality is precisely that which fulfills it and gives it life. Equally, this work demonstrates that need does not pre-exist function. What occurs is precisely the opposite. Furthermore, it does not allow us to forget that, were it not for a repeatedly rediscovered internal volition, it might very well not exist. We intuit that we would most probably adapt well to such a situation. Merz, proun, bólides… what good are they, after all?

Texto de / Text by Sônia Salzstein

Extras

PDF: Catálogo da exposição » Exhibition catalogue